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Estação de Passageiros em Pelotas - 1929
A história da Varig é uma história fascinante de homens e de máquinas. Homens idealistas, empreendedores, dinâmicos. Máquinas sobretudo voadoras. Seu idealizador, Otto Ernst Meyer, alemão de nascimento depois naturalizado brasileiro, emigrou para o Brasil em 1921, contratado pelas empresas dos irmãos Lundgreen (tecidos), em Recife. Mas, o seu sonho era fundar, em nosso país, uma empresa de aviação comercial. Conhecimento do assunto, Otto Ernst Meyer já possuía, pois, fora oficial da Força Aérea alemã. Era idealismo puro. Ao industrial para quem trabalhava propôs a criação de uma companhia de navegação aérea. Não teve êxito. Do Recife, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde continuou tentando concretizar seu objetivo. O máximo que conseguiu foi fundar uma agência de passagens... marítimas. Mudou-se então, outra vez para Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, ali estabelecendo-se com um escritório de representações.

De pequena estatura, ágil, "cabeça dura", cordial, enérgico, dotado de uma grande capacidade de trabalho, Meyer era muito respeitado por seus amigos e querido por todos aqueles que o cercavam nas duras lutas dos idos de 1921. A pacata cidade de Porto Alegre de então nem tomava conhecimento da febril atividade de Otto Ernst Meyer. O mundo rodava devagar, os cafés abrigavam a boemia elegante. A política era coisa só de jornais. A tração animal predominava nos transportes urbanos, havia serestas e os literatos se reuniam em tertulias. E num documento deixado por Otto Ernst Meyer vamos encontrar aspectos interessantes que retratam suas atividades na época. Disse ele: "Sempre o chefe deve lembrar-se de que o sólido futuro da obra planejada e o seu próprio sucesso dependerão da escolha e da contínua valorização da equipe, do ambiente de trabalho que ele poderá impor, da honestidade, disciplina e do idealismo dentro da empresa e nas suas relações com as autoridades, imprensa, e freguesia. Neste sentido, esforçamo-nos em transmitir as nossas experiências aeronáuticas provindas da velha Europa ao Brasil, que ambiciosamente, estava tomando consciência da necessidade premente para assegurar, em vista de seus problemas geográficos um lugar importante no então nascente tráfego aéreo comercial. Entretanto, por não estar ainda suficientemente maduro a mentalidade pública e do capital, fracassaram, entre princípios de  1921 e fins de 1924, duas tentativas minhas e de antigos companheiros de armas (Hans Joesting e Hans Cronau) para organizar empresas de transporte aéreo no país."

Entretanto, apesar desses insucessos, Otto Ernst Meyer não desanimava. Em Porto Alegre a vida corria normalmente, até que, "novos esforços, desenvolvidos em fins de 1925 e princípios de 1926, começaram, finalmente, a encontrar interesses positivos entre personalidades de destaque no Rio Grande do Sul, inclinadas a contribuir com o seu real prestígio e alguma participação financeira."

Posteriormente, orientado pelo Major Alberto Bins, mais tarde prefeito de Porto Alegre, Otto Meyer ingressou no Palácio do Governo com a solicitação de pedido de insenção à futura empresa de aviação aérea riograndense do imposto estadual, recebendo 24 dias depois (30 de outubro de 1926) um parecer inteiramente favorável.
Bem compreendendo a magnitude do empreendimento, homens de negócio não negaram o seu apoio financeiro. E assim formou-se um grupo de dez subscritores, dispostos a tornar-se os incorporadores da empresa projetada. O povo, em geral, também deu o seu incentivo, adquirindo ações. Em novembro de 1926, encontrando-se a empresa em franco andamento, poderia pensar-se na aquisição do material técnico e humano, o que levou Otto Ernst Meyer à Alemanha para os primeiros contatos com as grandes firmas e indústrias do gênero, a fim de conseguir tripulantes e aviões apropriados para o transporte comercial.

Acertou-se, desde logo, a vinda do avião "Atlântico", ao Brasil, para vôos de demonstração e de estímulo ao empreendimento, como também ficou acertado um contrato que previa a compra do "Atlântico", pagável por cessão de ações no montante de 21% sobre o capital. Mas, para que a iniciativa fosse coroada de êxito, tornava-se necessário conseguir uma licença para vôos regulares e extraordinários no território nacional, o que foi alcançado em janeiro de 1927.

Era a arrancada final para o funcionamento da nova empresa. A esta altura, "necessitando muito do auxílio de um secretário para vencer o fabuloso aumento dos mais deferentes serviços", Otto Ernst Meyer publicou o respectivo anúncio. Foram poucos os que se apresentaram. O salário não era dos melhores e, além disso, faltava confiança no êxito do negócio. "Um candidato, porém, vigoroso, moço de 19 anos conta Otto Meyer - que nenhuma importância quis dar ao que lhe poderia oferecer de ordenado do meu bolso, muito me interessou e logo o convidei a pendurar o chapéu e o casaco no cabide e pôr em movimento a máquina de escrever, para que, juntos, tentássemos vencer aquela avalanche de trabalho, pronta para soterrar a iniciativa. Até hoje, a Varig nunca se arrependeu dessa escolha." Chamava-se Ruben Martin Berta, o "moço vigoroso" que se tornou o primeiro funcionário da navegação aérea no Brasil, e mais tarde sucessor de Otto Ernst Meyer, na presidência da empresa. Os dois - Meyer e Berta - faziam tudo: limpavam o escritório, tratavam da propaganda, da administração, e etc. Trabalho intenso, árduo, paciente.

Às 9:30 hs. da manhã do dia 27 de janeiro de 1927, o "Atlântico" levantava vôo da baía da Guanabara, aterrissando em Porto Alegre no dia 29, às 12:30 hs., após ter escalado sob jubilosas recepções em Santos, São Francisco e Florianópolis. A tripulação era constituída pelo comandante, engenheiro, piloto e o mecânico de bordo. Como passageiros havia o tenente aviador Henrique Fontenelle e Otto Ernst Meyer.

No dia 2 de fevereiro de 1927, realizou-se o primeiro vôo de estudo, propaganda e escolha do lugar apropriado, nas margens do Saco da Mangueira, em Rio Grande, para a instalação da primeira oficina de conservação, revisão e conserto, montagem e depósito do material em tráfego e a chegar. O "Atlântico" levava a bordo a Sta. Maria Echenique, como portadora de uma mensagem do intendente de Porto Alegre, Otávio Rocha, ao seu colega da cidade de Rio Grande, João Fernandes Moreira, e mais os Srs. Guilherme e João Oliveira Goulart, estes com passagens pagas e que foram, desta forma, os primeiros passageiros regulares da aviação comercial brasileira. Também levava malas postais, a título de propaganda. A emoção dominava a todos e o "Atlântico" foi recebido pela população de Ro Grande, ao acenar de lenços e exclamações de admiração.

O entusiasmo envolvera todo o Rio Grande do Sul, e assim, surgiram novos subscritores de ações em todo o Estado. Em 1º de abril de 1927 foi convocada a primeira assembléia preparatória, em que foi apresentado e discutido o projeto de estatuto da empresa, elaborado pelo Dr. Adroaldo Mesquita da Costa e Carlos Maria Bins.

E a 7 de maio de 1927, funcionando como secretários José Bertosa e Teóphilo de Barros a assembléia geral formada por 550 acionistas de Porto Alegre, Pelotas, São Leopoldo, Rio Grande, Novo Hamburgo e Cachoeira, aclamava comovida, a fundação da primeira empresa aérea brasileira, a Varig com sede em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil.

Otto Ernst Meyer foi eleito diretor gerente e Cmte. Rudolf Cramer von Clausbruch, diretor técnico e diretor delegado, o engenheiro comandante Fritz Hammer. Iniciava-se assim, a fase de plena realização, tão ansiosamente planejada. O Capital previsto - mil contos de réis, dividido em ações nominativas de 200 mil réis, foi integralmente subscrito, sendo as chamadas feitas através da imprensa, prontamente atendidas. A parte do Condor Syndikat, em pagamento do "Atlântico", era de 21%, mais tarde transferida ao governo do General A. J. Flores da Cunha.

Em 15 de junho de 1927 foi findo o contrato de fretamento dos serviços da Condor Syndikat, de Berlim, passando o comandante Cramer von Clausburch, o mecânico de bordo e o piloto para o quadro de funcionários da Varig.
Concomitantemente foi feito o registro da compra do hidroavião Dornier Wal "Atlântico" primeira matrícula brasileira P-BAAA no livro "diário" da Varig que assume, com plena responsabilidade o serviços na sua linha tronco sobre a Lagoa dos Patos, entre Porto Alegre, Pelotas e Rio Grande.

Assim foram liquidados todos os compromissos assumidos seis meses atrás, em Berlim, pelo fretamento do avião, tripulantes, conselheiro técnico, serviços de revisão e conservação do "know-how".
Mas, o tempo marchava. E com ele, e até mesmo à frente dele, também a aviação. A Varig enfrentava dificuldades naturais de um empreendimento pioneiro, mas, em 1933, já servia a quase todo o território do Rio Grande do Sul, com linhas para Bagé, Livramento, Uruguaiana, Santa Cruz, Torres, Cruz Alta, Santa Maria, Santo Ângelo e outras cidades.
Continua
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